Micropensões, planos instituídos e a aritmética do ticket pequeno
O melhor retrato do problema previdenciário brasileiro talvez esteja num conto de 1962. João Guimarães Rosa, médico e diplomata mineiro, autor de Grande Sertão: Veredas, publicou Primeiras Estórias naquele ano. “A Terceira Margem do Rio” é um dos contos mais conhecidos da coletânea e ocupa poucas páginas.
O enredo é simples. Certo dia, o pai encomenda uma canoa pequena, feita sob medida para caber uma pessoa só e de madeira boa o bastante para durar vinte ou trinta anos na água. Quando fica pronta, ele não leva mantimento e não se despede: entra na canoa, rema até o meio do rio e fica à vista de todos e ao alcance de ninguém, ano após ano.
Guimarães Rosa faz questão de estabelecer que o pai não enlouqueceu. É descrito como homem comum, ordeiro, cumpridor. E a canoa foi encomendada com especificação, prazo e finalidade: o que ele faz é deliberado, um arranjo e não um colapso.
A família vai se dispersando: a mãe acaba indo embora, a irmã casa e muda, o irmão parte para a cidade. Só o filho fica. Durante décadas, ele leva comida às escondidas até um ponto na beira do rio. Ninguém contabiliza esse esforço, e é ele que sustenta a permanência do pai ali.
No fim, já envelhecido, o filho chama o pai e se oferece para tomar seu lugar. O pai, depois de tantos anos, manobra a canoa e vem em sua direção. E o filho, tomado de pavor, foge. Passa o resto da vida diminuído por aquele instante.
A imagem serve ao debate previdenciário brasileiro por duas razões. A primeira é que o sistema oferece duas margens. De um lado, o Regime Geral de Previdência Social (RGPS), desenhado para o vínculo formal e, para quem contribui pelo piso, limitado a um salário mínimo. De outro, a previdência complementar tradicional, construída sobre a relação de emprego estável e sobre tickets que pressupõem renda mais alta e previsível. Ou seja, RGPS travado no piso e a previdência complementar desenhada para emprego estável. Entre as duas margens há aproximadamente 38,5 milhões de trabalhadores brasileiros que não pertencem inteiramente a nenhuma delas [2]. E que, como o pai do conto, não estão ali por desarranjo, mas porque o mercado de trabalho passou a funcionar de outra maneira. O mercado de trabalho mudou.
A segunda razão é menos evidente e mais importante. O que falha no conto não é a intenção do filho. É a persistência no momento decisivo. É o que a experiência internacional com micropensões mostra: os programas resolveram o problema de fazer as pessoas entrarem, não o de fazê-las permanecer.
Esta edição do Tivio Deep Dive trata do que essa distinção significa para as entidades fechadas de previdência complementar e para quem administra os recursos delas.
E, para nós da Tivio Capital, essa discussão é particularmente relevante. Como empresa especializada na gestão de recursos para Entidades Fechadas de Previdência Complementar (EFPCs), Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) e outros investidores institucionais de longo prazo, acompanhamos diariamente o desafio de transformar contribuições recorrentes em patrimônio previdenciário sustentável. Sob essa ótica, o debate sobre micropensões vai além da inclusão financeira ou previdenciária. Ele nos convida a refletir sobre como ampliar o acesso de milhões de brasileiros à mesma infraestrutura de governança, investimento e acumulação de longo prazo que hoje sustenta os sistemas previdenciários mais estruturados do país. Esse é o grande tema que é refletido durante esta edição.
O tamanho real do público
O debate público sobre proteção previdenciária no trabalho atípico tem se concentrado em motoristas e entregadores de aplicativo. Levantamento do Cebrap em parceria com a Amobitec estima em cerca de 2,2 milhões o número de trabalhadores vinculados a plataformas digitais no país em 2024, dos quais 1,7 milhão como motoristas e aproximadamente 455 mil como entregadores.
É um recorte relevante e pequeno diante do universo efetivo. Entre o RGPS limitado ao piso e a previdência complementar desenhada para o emprego estável há cerca de 38,5 milhões de trabalhadores que não pertencem inteiramente a nenhum dos dois regimes.
38,5 mi
Trabalhadores entre as duas margens
IBGE / Elaboração: Tivio Capital
2,2 mi
Vinculados a plataformas digitais (2024)
Cebrap / Amobitec
1,7 mi
Motoristas de aplicativo
Cebrap / Amobitec
455 mil
Entregadores de aplicativo
Cebrap / Amobitec
Gráfico 1 | O público sem acumulação previdenciária não são 2,2 milhões de motoristas: são 38,5 milhões
População ocupada de 103 milhões (2025), por posição na ocupação — em milhões de pessoas.
Empregados com carteira (setor privado)
39,4 mi
Conta própria
26,2 mi
Empregados sem carteira (setor privado)
13,4 mi
Trabalhadores domésticos
5,5 mi
Plataformas digitais — o recorte do debate público
Vale registrar um dado que costuma passar despercebido e que muda a natureza do problema: a informalidade brasileira vem caindo. A taxa anual passou de 39,0% em 2024 para 38,1% em 2025, e em janeiro de 2026 atingiu 37,5%, o menor patamar desde julho de 2020. O IBGE registra queda contínua desde 2022, com aceleração a partir de 2023 [2].
A ressalva é que o contingente absoluto praticamente não se moveu. A taxa recua porque o denominador cresceu: a população ocupada atingiu 103 milhões de pessoas em 2025, recorde da série [2].
Gráfico 2 | A taxa de informalidade caiu; o contingente de trabalhadores informais, praticamente não
Trimestres móveis encerrados em janeiro. A taxa recua sobretudo porque a população ocupada cresceu para 103 milhões.
A taxa de informalidade recuou 1,5 p.p. (39,0% → 37,5%)
O estoque de informais recuou apenas 1,2% (39,0 mi → 38,5 mi)
Trata-se, portanto, de um problema de estoque, não de tendência. E o estoque não é conjuntural.
No conto, a família não encontra uma forma precisa de nomear o lugar que o pai passou a ocupar. Ele não estava em casa, mas também não estava do outro lado. Permanecia numa espécie de terceira margem, difícil de definir e, por isso mesmo, fácil de ignorar. O debate previdenciário muitas vezes faz o mesmo com esse contingente: quem não está claramente dentro nem claramente fora acaba permanecendo fora das contas e das prioridades.
Capítulo #2
O teto de vidro da formalização
Há um segundo elemento na leitura do IBGE que merece atenção. A coordenação da PNAD Contínua atribui parte da queda recente da informalidade à expansão do registro em CNPJ entre trabalhadores por conta própria, isto é, à migração para o regime do microempreendedor individual.
O Brasil registrava 12,9 milhões de MEIs ativos em outubro de 2025. É um público formalizado, bancarizado, com CNPJ e com hábito consolidado de pagamento mensal recorrente. Do ponto de vista de acesso, é o público mais preparado que já existiu no país para um produto previdenciário de baixo ticket.
Do ponto de vista de proteção, no entanto, a formalização via MEI tem um limite estrutural. A contribuição é de 5% do salário mínimo, R$ 81,05 em 2026, e dá direito à aposentadoria por idade limitada a um salário mínimo. Para acessar o teto do RGPS, é preciso complementar em mais 15%, em guia separada, o que quadruplica o desembolso mensal.
Gráfico 3 | Formalizar-se como MEI garante a cobertura básica e trava o benefício em um salário mínimo
Contribuição mensal ao INSS — valores de 2026 (salário mínimo de R$ 1.621).
Fonte: LC 128/2008; Receita Federal; INSS. Elaboração: Tivio Capital. A complementação de 15% é opcional e paga em guia separada.
A canoa do conto foi encomendada sob medida, para caber uma pessoa e nada além. O MEI tem a mesma virtude e o mesmo limite: acomoda exatamente quem precisa ser acomodado, e não comporta mais do que isso.
O ponto não é criticar o desenho do MEI, que cumpriu bem o objetivo para o qual foi criado. É observar que a formalização em curso resolve a cobertura básica e simultaneamente estabelece um teto. Milhões de pessoas estão saindo da informalidade para uma condição em que a aposentadoria projetada é, por construção, o piso.
Esse é precisamente o espaço da previdência complementar. É um espaço que está crescendo, não encolhendo.
A discussão costuma concentrar-se na cobertura previdenciária, mas há uma segunda camada igualmente importante: a acumulação. À medida que milhões de trabalhadores passam a depender cada vez mais da poupança complementar para preservar renda na aposentadoria, cresce a importância de veículos de investimento capazes de transformar contribuições recorrentes em patrimônio de longo prazo. É nesse ponto que a infraestrutura já desenvolvida pelas EFPCs e seus gestores de recursos passa a ser parte da solução.
Capítulo #3
A pressão sobre o RGPS é demográfica, não trimestral
Os números recentes da Previdência têm alimentado a leitura de deterioração acelerada. O resultado acumulado do RGPS no primeiro trimestre passou de um déficit de R$ 65,5 bilhões em 2025 para R$ 92,2 bilhões em 2026, alta de 40,8%. A despesa avançou 19,2% contra arrecadação de 10,5%.
Fonte: Ministério da Previdência Social. Elaboração: Tivio Capital.
Esses números merecem decomposição antes de servirem a qualquer argumento.
Gráfico 4 | 92% da piora do resultado do RGPS no 1T26 vem do reconhecimento do passivo judicial
Decomposição da variação do resultado acumulado de janeiro a março, 2025 → 2026.
Fonte: Ministério da Previdência Social. Elaboração: Tivio CapitalO passivo judicial saltou de R$ 4,7 bilhões para R$ 29,3 bilhões no acumulado do trimestre (alta de 518%) e responde por 92% da variação do resultado. Excluído esse item, a despesa cresceu 8,6%, abaixo da arrecadação, e o déficit teria passado de R$ 60,8 bilhões para R$ 63,0 bilhões, alta de 3,6%.A observação não enfraquece a tese deste material. Ao contrário: o argumento estrutural não depende do dado trimestral, e é melhor construí-lo sobre séries longas.
Gráfico 5 | A cobertura das despesas do RGPS caiu 12 p.p entre 2015 e 2017 e está estável desde então
Acumulado até novembro de cada ano, deflacionado pelo INPC (base nov/25). O hiato em reais cresce porque a base cresce.
Entre 2015 e 2025, em termos reais, a arrecadação líquida do INSS cresceu 1,9% ao ano e a despesa com benefícios, 3,7% ao ano. O hiato entre as duas curvas passou de R$ 150 bilhões para R$ 331 bilhões, mais que dobrou.
Visão de longo prazo
Gráfico 6 | Arrecadação líquida x despesa com benefícios previdenciários (2015-2025)
Fonte: CGF/INSS. Elaboração: SRGPS/MPS e Tivio Capital.
A série de cobertura, porém, revela algo que o gráfico de níveis esconde: praticamente todo o deslocamento ocorreu entre 2015 e 2017, quando a razão entre arrecadação e despesa caiu de 77,4% para 65,3%. Desde então, oscilou em torno de 65% e encerrou 2025 exatamente no mesmo patamar de 2017. O hiato em reais cresce porque a base cresce, não porque a relação esteja se deteriorando.
Isso desloca o eixo do argumento. A pressão relevante não está no fluxo corrente, está na transição demográfica.
Gráfico 7 | A pressão estrutural sobre o RGPS não está no fluxo trimestral – está na demografia até 2070
Pontos das Projeções de População do IBGE (revisão 2024)
Fonte: IBGE, Projeções da População, revisão 2024. Elaboração: Tivio Capital. A trajetória entre os pontos não está representada.
De 2000 a 2023, a proporção de brasileiros com 60 anos ou mais praticamente dobrou, de 8,7% para 15,6%. As Projeções de População do IBGE, em sua revisão de 2024, indicam 37,8% em 2070. A população total deve atingir o máximo de 220,4 milhões em 2041 e recuar para 199,2 milhões em 2070. A taxa de fecundidade caiu de 2,32 para 1,57 filho por mulher entre 2000 e 2023.
É nesse horizonte não no do próximo boletim mensal que a insuficiência dos mecanismos atuais de acumulação se materializa. E é um horizonte que se encaixa razoavelmente bem no ciclo de vida contributivo de quem hoje tem 30 anos e nenhuma reserva.
Quem observa o rio todos os dias vê a corrente mudar de direção com o vento. O que decide o destino da canoa é o leito e o leito se move em outra escala de tempo.
Quem observa o rio todos os dias vê a corrente mudar com o vento. O que decide o destino da canoa é o leito — e o leito se move em outra escala de tempo.
Tivio Deep Dive · Outubro 2026
Capítulo #4
O que a experiência internacional efetivamente mostrou
As micropensões vêm sendo desenvolvidas há mais de uma década em diferentes países. Índia, Quênia, Colômbia, México, Chile e China acumularam experiências que costumam ser citadas como demonstração de viabilidade. É uma leitura parcialmente correta que convém qualificar.
Esses programas resolveram, de forma inequívoca, um problema que se considerava intratável: como alcançar, cadastrar e receber contribuições de trabalhadores de renda baixa e intermitente, a custo unitário viável. A resposta veio da combinação de identificação digital, conta transacional universal e débito automático de baixo valor. O que eles não resolveram foi a acumulação.
Gráfico 8 | Onde as micropensões chegaram a escala de adesão, a adesão não se converteu em benefício
Colômbia: vinculados ao BEPS e beneficiários de anuidade vitalícia (ref. fev/2026). Quênia: cobertura previdenciária dos trabalhadores do setor informal. Fonte: IBGE, Projeções da População, revisão 2024. Elaboração: Tivio Capital. A trajetória entre os pontos não está representada.
1,9%
Colômbia — conversão em renda vitalícia: 27.914 beneficiários sobre 1,45 mi de vinculados ao BEPS
Colpensiones, fev/2026
1,3% → 2,5%
Quênia — cobertura do setor informal entre 2019 e 2023, após o Mbao Pension Plan
RBA / KIPPRA
90 mi
Índia — adesões ao Atal Pension Yojana, mas saldo médio de ~R$ 385 por participante
PFRDA, abr/2026
Na Colômbia, o programa de Beneficios Económicos Periódicos, criado em 2013 e operado pela Colpensiones, oferece aporte mínimo flexível a partir de valores muito baixos e um subsídio estatal de 20% sobre o capital poupado. Reunia 1,45 milhão de vinculados na referência de fevereiro de 2026, dos quais 27.914 já recebiam a anuidade vitalícia, 1,9% de conversão em treze anos de programa. Números mais recentes da Colpensiones indicam mais de 2 milhões de vinculados [11].
No Quênia, o Mbao Pension Plan foi pioneiro na contribuição via mobile money e é frequentemente citado como caso de sucesso tecnológico. A cobertura previdenciária dos trabalhadores do setor informal queniano evoluiu de 1,3% em 2019 para 2,5% em 2023, mais de oito anos após o lançamento do programa [13].
Na Índia, o Atal Pension Yojana é o caso de maior escala do mundo.
Gráfico 9 | Dez anos de Atal Pension Yojana produziram um saldo médio de cerca de R$385 por participante
Cospous de INR 48.000 crore sobre 81 milhões de participantes (Ago/2025), convertido a INR1-R$ 0,065
Fonte: PFRDA e Ministério das Finanças (Índia). Cálculo: Tivio Capital.
O programa superou 9 crore (90 milhões) de adesões brutas em abril de 2026, com mais de 1,35 crore de novos participantes no exercício fiscal. É um resultado de distribuição sem paralelo. Ao mesmo tempo, 86,9% dos participantes escolheram o menor nível de benefício, e o patrimônio acumulado de aproximadamente ₹48.000 crore sobre 81 milhões de participantes equivale a algo em torno de R$ 385 por pessoa.
A distinção que interessa é entre adesão e permanência. Durante décadas a família via o pai todos os dias, e a constância da imagem foi confundida com um arranjo resolvido, quando era apenas visibilidade.
Esses programas representam passos importantes na construção de soluções previdenciárias mais inclusivas. A experiência acumulada mostra que a tecnologia conseguiu ampliar significativamente o acesso e reduzir barreiras de entrada. Oportunidades ainda existem para avançar na consistência das contribuições ao longo do tempo e na construção de benefícios mais robustos, tornando o modelo cada vez mais sustentável e relevante para os participantes.
Convém acrescentar que a Índia e a Colômbia adotaram, cada uma a seu modo, um mecanismo que a discussão brasileira tende a subestimar: contrapartida externa à contribuição do participante. O subsídio colombiano de 20% e a coparticipação governamental indiana nos primeiros anos não são detalhes de desenho. São a resposta ao problema econômico central, que trataremos adiante.
Resolver a entrada é apenas o primeiro passo. Uma vez estabelecido o fluxo de contribuições, o desafio passa a ser a acumulação de patrimônio ao longo de décadas. A experiência internacional sugere que a efetividade de uma micropensão depende não apenas da capacidade de arrecadar pequenos aportes. Uma vez superada a barreira de acesso, surge outra pergunta: onde e como esses recursos serão investidos ao longo de décadas? A qualidade da gestão, a disciplina de alocação e a adequação dos veículos ao perfil previdenciário passam a ser determinantes para a formação de patrimônio.
Capítulo #5
A conta que raramente é feita
A dificuldade mais citada na implementação de micropensões é comportamental: a preferência pelo presente, a irregularidade da renda, a baixa familiaridade financeira. São diagnósticos corretos e incompletos.
Existe uma restrição anterior, de natureza aritmética, que nenhum aplicativo, nenhuma campanha de educação financeira e nenhum incentivo comportamental resolve. É a relação entre o custo de administrar uma conta previdenciária e o valor que essa conta recebe.
O ponto de partida é favorável ao sistema brasileiro. O Relatório de Despesas Administrativas das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (EFPC), publicado pela PREVIC com dados de 2023, mostra que as 19 entidades que administram planos instituídos apresentam a menor despesa por participante do sistema fechado: média de R$ 598 e mediana de R$ 395 por ano, resultado atribuído à terceirização intensa do segmento.
O problema aparece quando esse custo é confrontado com o ticket do público-alvo.
Gráfico 10 | No ticket de R$ 50 por mês, o custo administrativo mediano consome dois terços da contribuição anual
Despesa administrativa por participante nas 19 EFPC que administram planos instituídos — a menor do sistema fechado — confrontada com a contribuição anual em diferentes tickets
Fonte: PREVIC, Relatório de Despesas Administrativas das EFPC (2023). Cálculo: Tivio Capital.
O ticket do público-alvo
Uma contribuição de R$ 50 mensais soma R$ 600 no ano. O custo mediano de R$ 395 equivale a 66% desse valor; o custo médio, a praticamente 100%. Só a partir de tickets próximos de R$ 500 mensais a despesa administrativa recua para um dígito percentual muito acima da capacidade contributiva do público que se pretende alcançar.
A objeção natural é que a despesa administrativa não é cobrada como percentual da contribuição, e sim, tipicamente, como taxa sobre o patrimônio. É verdade, e leva à segunda formulação do mesmo problema.
Gráfico 11 | A R$ 50 por mês, são 33 anos até o saldo do participante sustentar o próprio custo de administração
Tempo até o saldo atingir o nível em que a taxa de administração cobre um custo fixo de R$ 395 por participante ao ano. Premissas: retorno real de 4% a.a., contribuição constante em termos reais.
Premissas: Tivio Capital, a partir de PREVIC (2023).
Com um custo fixo de R$ 395 por participante ao ano e uma taxa de administração de 1% ao ano, o saldo de equilíbrio é de R$ 39,5 mil. A um retorno real de 4% ao ano, um participante que aporte R$ 50 mensais leva cerca de 33 anos para atingi-lo. A R$ 100, leva 21 anos. Até lá, cada conta é deficitária e está sendo subsidiada por alguém, por outra coorte de participantes, pelo instituidor ou pela própria entidade.
E, mesmo transposta essa barreira, resta a questão da adequação.
Gráfico 12 | R$ 50 por mês durante 30 anos geram renda equivalente a 13% de um salário mínimo
Premissas: retorno real de 4% a.a., contribuição constante em termos reais, conversão em renda por 20 anos, salário mínimo
de R$ 1.621. Bruto de custos administrativos.
Premissas: Tivio Capital. Ver notas metodológicas do Anexo.
Trinta anos de aportes mensais de R$ 50, a 4% de retorno real, acumulam cerca de R$ 34,3 mil, o que se converte em aproximadamente R$ 206 por mês ao longo de vinte anos, 13% de um salário mínimo de 2026, e ainda bruto de custos administrativos. A R$ 200 mensais, chega-se a algo próximo de metade de um salário mínimo.
Essa é a razão pela qual o saldo médio do programa indiano é de R$ 385 por participante e a renda média do beneficiário colombiano é modesta. Não é falha de execução. É o resultado esperado de tickets pequenos em horizontes interrompidos.
Reconhecer isso não é argumento contra as micropensões. É a condição para desenhá-las de forma que funcionem. E delimita com precisão as três alavancas disponíveis.
AS TRÊS ALAVANCAS DISPONÍVEIS
1. Contrapartida
Durante décadas, o filho levou comida ao rio às escondidas, sem que ninguém contabilizasse: a permanência do pai nunca foi gratuita. O principal incentivo dos planos tradicionais, a dedução do Imposto de Renda, é irrelevante para quem está abaixo da faixa de isenção, situação da maior parte do público informal. O incentivo precisa vir por outro mecanismo: aporte do instituidor, contrapartida da plataforma contratante ou subsídio público, nos moldes colombianos [11].
2. Custo marginal próximo de zero
É a alavanca que mudou de patamar no Brasil e que não existia quando Quênia e Colômbia desenharam seus programas. O Pix Automático, disponível desde junho de 2025, permite cobrança recorrente autorizada uma única vez, sem convênio bilateral com cada instituição e sem tarifa para o pagador. Somado ao Open Finance e à identificação digital via gov.br, transforma o custo de originação e de cobrança recorrente de baixo valor [14]. É a diferença entre um custo de R$ 395 por participante ao ano e um custo de algumas dezenas de reais.
3. Escala
Um milhão de participantes aportando R$ 50 mensais gera R$ 600 milhões anuais de contribuição, contra R$ 395 milhões anuais de custo às medianas atuais [9]. A conta só fecha com uma redução de ordem de grandeza no custo unitário, o que exige volume e padronização, não customização.
Sem alguma forma de contrapartida, a matemática do ticket pequeno não fecha para o participante. Com custo marginal próximo de zero e escala, ela pode fechar.
Capítulo #6
Onde as entidades fechadas entram
O Brasil reúne condições particularmente favoráveis para essa agenda, e por uma razão específica: diferentemente de vários países que precisaram construir estruturas do zero, o sistema brasileiro já dispõe de infraestrutura regulatória e operacional madura em governança, gestão fiduciária e administração de recursos de longo prazo.
Os planos instituídos são o veículo natural. Diferentemente dos planos patrocinados por empresas, os instituídos podem ser oferecidos por associações, entidades de classe, sindicatos, cooperativas e outras organizações representativas. A arquitetura está prevista na Resolução CNPC nº 54/2022 [6].
Sob essa arquitetura, as EFPCs não precisariam construir internamente toda a infraestrutura de gestão de recursos. O modelo já utilizado hoje pela maior parte do sistema permite que os ativos sejam alocados em fundos de investimento geridos por gestores especializados e aderentes às diretrizes regulatórias e às políticas de investimento dos planos de benefícios. Dessa forma, uma eventual expansão dos planos instituídos para públicos de menor renda poderia se apoiar em uma infraestrutura de investimento já existente e amplamente testada no mercado previdenciário brasileiro.
Na prática, isso significa que boa parte da engrenagem financeira necessária para sustentar programas de micropensão já existe. As EFPCs contam com regras de governança consolidadas, processos fiduciários maduros e acesso a fundos de investimento especialmente desenhados para objetivos previdenciários de longo prazo. Em vez de criar uma nova infraestrutura, seria possível ampliar a utilização de uma estrutura já operacional e compatível com as exigências regulatórias do sistema.
12,2%
dos participantes ativos do sistema fechado estão em planos instituídos
PREVIC / ABRAPP, 2024
1,3%
dos ativos sob administração — a assinatura do ticket baixo
PREVIC / ABRAPP, 2024
R$ 23,9 bi
em ativos, 19 entidades e cerca de 388 mil participantes
PREVIC / ABRAPP, 2024
Gráfico 13 | Planos instituídos já são 12% dos participantes do sistema fechado e apenas 1,3% dos ativos
A assimetria entre participantes e patrimônio é a assinatura do ticket baixo. É o ponto de partida de qualquer programa de micropensões. Ativos de R$ 23,9 bilhões em 2024. Fonte: PREVIC, Estatística Trimestral; ABRAPP, Consolidado Estatístico [10]. Elaboração: Tivio Capital.
O segmento já opera em escala não trivial: 19 entidades, cerca de 388 mil participantes ativos e R$ 23,9 bilhões em ativos em 2024 [10]. A assimetria entre a participação em pessoas (12,2%) e em patrimônio (1,3%) é a assinatura do ticket baixo e é, ao mesmo tempo, a demonstração de que o modelo opera e o retrato do desafio econômico descrito na seção anterior.
Aqui é preciso registrar uma limitação regulatória que costuma ser apresentada de forma imprecisa. A adesão automática, o mecanismo comportamental de maior eficácia comprovada na literatura previdenciária internacional, está de fato autorizada no Brasil, mas em escopo restrito. A Resolução CNSP nº 464/2024, de 19 de fevereiro de 2024, faculta cláusula de adesão automática nos contratos coletivos de plano instituído pelo empregador, aplicável a seus funcionários ou dirigentes [7]. Além de tratar de previdência complementar aberta, e não do regime das entidades fechadas, o dispositivo pressupõe justamente o ator que não existe no mercado aqui descrito.
A adesão automática está disponível onde há empregador e indisponível onde não há. Essa é a lacuna regulatória concreta e merece ser nomeada com precisão, porque uma agenda de “menos regulação e mais produto” endereça o problema errado. O que falta é a extensão do mecanismo de adesão automática, com direito de saída assegurado, às relações entre instituidor e associado no regime fechado.
Dito de outro modo: a norma brasileira autoriza embarcar automaticamente apenas onde existe um cais. O público descrito aqui parte da margem.
Capítulo #7
O que isso significa para a gestão de recursos
Para uma gestora, um programa dessa natureza apresenta quatro características que o distinguem de um plano instituído convencional.
O passivo tem duas durações simultâneas
O horizonte previdenciário é ultralongo, mas o desenho precisa contemplar acesso parcial aos recursos após períodos mínimos de contribuição, sem o que a adesão não se sustenta, e com o que a finalidade previdenciária se compromete. A carteira não pode ser construída como se o passivo fosse apenas longo: ela precisa carregar liquidez para uma opcionalidade de resgate cuja frequência é, por hipótese, correlacionada a choques de renda dos participantes, ou seja, agregada e pró-cíclica.
A canoa do conto precisava durar décadas e, ao mesmo tempo, ser leve o bastante para ser manejada sozinha, todo dia. É o mesmo problema de projeto.
A restrição de custo determina a política de investimento
Esse contexto favorece estratégias transparentes, escaláveis e compatíveis com a lógica previdenciária de longo prazo. Fundos de Investimentos para atender EFPCs já operam exatamente nessa fronteira, combinando títulos públicos indexados à inflação, crédito privado de elevada qualidade e rigor de enquadramento regulatório. Para gestoras especializadas nesse segmento, como a Tivio Capital, o desafio não consiste em criar uma nova classe de ativos para as micropensões, mas em adaptar uma infraestrutura de investimento previdenciário já consolidada para um público potencialmente muito mais amplo.
Os subsídios cruzados precisam ser explícitos
Se contas novas são deficitárias por duas ou três décadas, alguém as financia. Quando esse alguém é a coorte de participantes mais antigos, trata-se de uma transferência intergeracional dentro do plano. Ela pode ser legítima e defensável, mas precisa ser dimensionada, divulgada e aprovada, não absorvida silenciosamente na taxa de administração. É o equivalente contábil da comida levada escondida: sustenta o arranjo e não aparece em lugar nenhum.
O passivo agregado tem qualidade rara
Contribuições pequenas, recorrentes e pulverizadas entre milhões de participantes produzem um fluxo de captação com baixa correlação ao ciclo de apetite a risco e com previsibilidade superior à de resgates de fundos abertos. É o perfil de passivo que sustenta os investimentos de prazo longo, como os estruturados, exatamente a classe de ativo em que a poupança previdenciária brasileira tem participação inferior à de pares internacionais.
É por aí que a agenda social e a tese de investimento se encontram. Não pela via retórica de que poupança de longo prazo fortalece o mercado de capitais, que é verdadeira e genérica, mas pela constatação específica de que esse é um dos poucos passivos capazes de financiar prazos que o mercado brasileiro tem dificuldade de alcançar.
#8
Conclusão
O envelhecimento populacional brasileiro avança em velocidade que a Europa levou um século para experimentar, e uma parcela expressiva da força de trabalho segue sem mecanismo estruturado de acumulação. A informalidade recua, mas o contingente permanece; e a formalização que a substitui, na forma predominante do MEI, estabelece um teto no piso.
As experiências internacionais mostram que os modelos tradicionais de seguridade social dificilmente resolverão sozinhos a inclusão previdenciária desse público. Mostram também que as micropensões, sozinhas, resolvem a entrada e não a permanência. A conclusão útil está entre as duas: o desenho precisa partir da aritmética do ticket, e não do entusiasmo com a tecnologia de distribuição.
O Brasil chega a esse debate com três ativos que poucos países tinham quando começaram: um sistema de previdência fechada experiente e regulado, uma infraestrutura de pagamentos recorrentes de custo marginal próximo de zero, e uma base de doze milhões de microempreendedores já formalizados e bancarizados. Falta o desenho de incentivo, falta a extensão da adesão automática ao regime fechado, e falta a decisão de operar em escala com produto padronizado.
Há ainda um quarto ativo frequentemente subestimado: a existência de gestores especializados em previdência complementar, com experiência na gestão de recursos de longo prazo para EFPCs e fundos já estruturados dentro das exigências regulatórias do setor. Isso significa que uma eventual expansão dos planos instituídos poderia ser apoiada por soluções de investimento já existentes, reduzindo custos de implementação, acelerando o ganho de escala e permitindo que a atenção se concentre naquilo que realmente falta resolver: adesão, permanência e incentivo à contribuição.
O personagem de Rosa passou a vida no meio do rio porque ninguém construiu a terceira margem. Ela não existe na geografia. Em previdência, existe, mas precisa ser construída deliberadamente, e a conta precisa fechar para quem embarca.
Caso essa terceira margem venha a ser construída por meio de planos instituídos ou outros arranjos previdenciários voltados ao trabalho independente, a acumulação não precisará começar do zero. O sistema brasileiro já dispõe de EFPCs, governança previdenciária consolidada e fundos de investimento preparados para gerir recursos com horizonte de décadas. Nesse contexto, a agenda das micropensões não representa apenas uma oportunidade de inclusão previdenciária. Representa também a possibilidade de conectar milhões de novos poupadores a uma infraestrutura de investimento de longo prazo que já existe, já opera em escala e já integra o conjunto de soluções oferecidas pela Tivio Capital.
Frederico Duarte — RI Institucional, Tivio Capital (frederico.duarte@tivio.com) Fellipe Oliveira — Diretor Financeiro e de Investimentos, Curitiba Prev
Tivio Deep Dive | Outubro de 2026
Investidores institucionais
A terceira margem não precisa começar do zero.
A Tivio Capital é especializada na gestão de recursos para EFPCs, RPPS e outros investidores institucionais de longo prazo. Conheça nossos fundos e fale com o time de Relações com Investidores Institucionais.
As projeções de custo e de acumulação foram construídas sobre premissas explícitas: retorno real de 4% ao ano, contribuição constante em termos reais, custo administrativo fixo de R$ 395 por participante ao ano (mediana PREVIC 2023), conversão em renda ao longo de 20 anos e salário mínimo de R$ 1.621. Os dados da Colômbia referentes a beneficiários (27.914) e vinculados (1.454.916) correspondem à mesma referência de fevereiro de 2026. A conversão de rupias para reais utilizou a paridade aproximada de ₹1 ≈ R$ 0,065, com finalidade exclusiva de referência de escala.
[1] Banco Mundial. Working Without Borders: The Promise and Peril of Online Gig Work, 2023. [2] IBGE. PNAD Contínua, 2025 e 2026. [3] Cebrap; Amobitec. Painel de acompanhamento dos motoristas e entregadores parceiros, 2. ed., 2025. [4] Agência Gov. Ministros alertam no STF para riscos da pejotização, 6 out. 2025. [5] Ministério da Previdência Social. Boletim Estatístico da Previdência Social, 2026. [6] CNPC. Resolução nº 54, de 18 de março de 2022. [7] CNSP. Resolução nº 464, de 19 de fevereiro de 2024. [8] IBGE. Projeções da População — Revisão 2024. [9] PREVIC. Relatório de Despesas Administrativas das EFPC, exercício 2023. [10] PREVIC. Estatística Trimestral, dez. 2024; ABRAPP, Consolidado Estatístico. [11] Colpensiones. Publicações institucionais sobre o BEPS, 2026. [12] PFRDA / Ministério das Finanças (Índia). Divulgações sobre o Atal Pension Yojana, 2025–2026. [13] Retirement Benefits Authority (Quênia); KIPPRA. [14] Banco Central do Brasil. Resolução BCB nº 402 e documentação do Pix Automático, 2024–2025.